O Árabe

Idéias, sentimentos, emoções. Oásis que nos ajudam a atravessar os trechos desérticos da vida...

domingo, 31 de agosto de 2008

DAS PALAVRAS

Pensai sempre, antes que as palavras deixem os vossos lábios.

Pois a palavra é como o vento, e pode ser a brisa que retempera ou o furacão que destrói. E, como o vento, não pode retornar sobre os seus próprios passos.

Uma vez proferida, a palavra não retorna. Como a confiança, uma vez traída, jamais voltará ser a mesma. E o amor que fenece jamais se poderá reerguer das próprias cinzas.

E quantas amizades, quantos amores, já se perderam por uma palavra irrefletida?

Outra forma não tendes, para expressar os vossos pensamentos, que as vossas palavras.

Mas os pensamentos vos pertencem, enquanto as palavras que dizeis pertencem aos ouvidos que as ouvem. E que direito tendes de oferecer aos vossos irmãos o que deles não gostaríeis de receber?

Meditai, antes de proferir as vossas palavras.

Pois as pessoas que vos cercam são como espelhos, a refletir em vossa direção o que recebem de vós. Assim, a vós retornará tudo que ao vosso redor espalhardes.

Por isto, meditai sempre. Para que as vossas palavras espalhem o amor, a compreensão e a paz. Não é uma questão de serdes bons, mas de serdes felizes.

Buscai, sempre, as boas palavras. E, como as palavras são o reflexo da alma, aos poucos purificareis a vossa alma; bons serão os vossos pensamentos, os vossos sentimentos. Bom se tornará o vosso verdadeiro Eu.

Vigiai as vossas palavras.

Para que não tragam lágrimas, mas sorrisos; para que ao desespero sobreponham uma nova esperança, à animosidade o perdão, à escuridão um raio de luz.

Eis que as palavras são como ferramentas; como elas, podeis construir ou destruir. Vossa é a escolha de como serão usadas.

Entretanto, uma vez findo o trabalho, devereis gozar o conforto de um teto; ou assentar-vos entre as ruínas. E em vossa companhia estará a satisfação; ou o arrependimento.

Recordai, sempre, que em cada hoje construís o vosso amanhã. E as dores e as alegrias que semeardes entre os vossos irmãos estarão à vossa espera, em alguma curva do caminho. Pois ninguém foge do seu passado, ou se esconde da própria consciência.

Vigiai as vossas palavras.

E não temereis os vossos pensamentos.


Texto do livro A Sabedoria de Hassan.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

DA AUTO VIGILÂNCIA

Que a prudência não se transforme em covardia, a autoconfiança em arrogância, ou o sonho em uma constante fuga à realidade.

Pois é nos meios que podemos encontrar a virtude, e nos extremos que se costumam abrigar os exageros.

Vigiemos, sempre, as nossas atitudes.

Pois é através delas, e não das nossas palavras, que revelamos o que realmente somos; que, efetivamente, ensinamos e demonstramos os nossos pensamentos.

Mais facilmente se oculta a mentira atrás de uma bela sentença, que de palavras não rebuscadas. Pois a verdade se impõe por si mesma, enquanto a mentira busca sempre agradar a quem a ouve.

Eis que nos têm dito que o preço da liberdade é a eterna vigilância; e, de fato, assim o é. Porém a liberdade é algo maior, que os nossos limitados conceitos não conseguem alcançar.

Pois ser livre não é fazer o que se quer, mas saber o que se pode fazer. É conhecer as próprias limitações, e avaliar as repercussões dos seus atos na vida de outras pessoas.

Porque não devemos duvidar de que todas as vidas se entrelaçam em algum ponto, no infinito do Universo. E o equilíbrio do Cosmo depende do nosso próprio equilíbrio.

Assim, colheremos as lágrimas que em nossos irmãos semearmos; e os risos que de seus lábios fizermos brotar. E experimentaremos as amarguras e as alegrias que, em nossas vidas, tivermos espalhado ao nosso redor.

Amadurecer não é abandonar os sonhos, mas aprender a torná-los realidades.

Pois tudo poderíamos fazer, e todas as obras seríamos capazes de realizar, se de fato soubéssemos como somos e do que somos portadores:
- da natureza, em nossos corpos mortais
- da alegria e da tristeza, em nossos sentimentos
- da sabedoria do Universo, em nosso verdadeiro eu.

Vigiemos as nossas atitudes, para que possamos conhecer, em verdade, os nossos pensamentos. Não devemos acreditar sempre em nossas próprias palavras, pois o homem costuma enganar a si mesmo.

Precisamos aprender a viver. E vigiar a nós mesmos, para que os outros não nos precisem vigiar.

Assim, teremos a verdadeira liberdade.


Texto do livro "A Sabedoria de Hassan"

sábado, 16 de agosto de 2008

OS RIOS E OS LAGOS

A poesia brota do sentimento.

Como a água da nascente, a flor de um botão, o amor de um olhar e a saudade da partida.

Pois a verdade negada não se transforma em mentira; ou a lágrima reprimida em um sorriso. Observai a sabedoria da natureza, onde cada coisa tem o seu lugar.

Por que tentais negar o que sois?

Seria mais sábio que vos aceitásseis, pois a aceitação é o primeiro passo para a mudança. E deveríeis buscar as vossas mudanças, em vez de imaginar que sois como gostaríeis de ser.

Acaso a água se torna em barro, sem misturar-se à terra? Ou o céu escuro em claro, sem que antes se desfaçam as nuvens? Transforma-se em lua o sol, sem que antes sobrevenha a noite?

Pode alguém conhecer a felicidade e o sofrimento, sem que antes conheça o amor?

Sois os mesmos, desde que viestes à Terra. E são os mesmos os vossos desejos e as vossas paixões; como são as mesmas as vossas alegrias e as vossas tristezas.

Pois não aprendestes ainda que sois como os rios, cujas águas podem carregar o barro que as turva e tornar-se cristalinas, sem que precise o rio deixar o seu leito ou o barro deixar de existir.

Já as águas de um lago não carregam o barro; antes permitem que se deposite ao fundo, como se negassem a sua existência. E por isto permanecem turvas.

Sois como os rios: entretanto, vos comportais como lagos que rios desejassem ser. E outra coisa não tenho feito, que buscar trazer-vos este conhecimento; como se a minha voz fosse o sopro do vento, que pudesse agitar as vossas águas.

Entretanto, persistis em como lagos vos comportardes. E é assim que deve ser, pois esta é a razão da nossa mútua existência; enquanto lagos existirem, deverá soprar o vento.

Assim como se renovarão os sonhos, enquanto existir a realidade. Ou como existirão os beijos, enquanto existir o amor; ou a inocência, enquanto houver a criança.

Por isto, se lagos continuardes a ser, após a minha partida outras vozes se farão ouvir; e entre elas estará a minha voz. Porque o vento não cessa, apenas repousa.

Dia virá, entretanto, em que vos reconhecereis como os rios que na verdade sois.

E juntos conheceremos o Mar!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A CANÇÃO DA SAUDADE

Eu finjo que não sinto a tua falta.

Como a planta que necessita viver no deserto finge não precisar da água; e a todos os dias esmiúça o céu, buscando nuvens de chuva.

Aprendi a viver sem ti.

Assim como o peixe, confinado em um aquário, aprende a viver sem o mar.

Entretanto, não sou completo.

Pois tanto te dei de mim, que hoje me falta a porção que confiei às tuas mãos.

Vivo.

Pois a saudade deixa intacto o corpo, enquanto dilacera a alma.

Já não preciso ouvir a tua voz.

Pois, em todo esse tempo, ensinei os meus ouvidos a esquecer a esperança.

E não preciso do calor dos teus braços.

Consegui acostumar-me ao frio em que a tua ausência envolveu a minha alma.

Já não vejo o mundo pelos teus olhos.

E, assim, sou como o cego que abençoa a escuridão que o envolve.

Entretanto, embora a razão me tenha ensinado a viver sem ti, o que direi ao coração que te pertence?

Não choro por ti.

Hoje, apenas acalento esta saudade. Como a mãe que adormece no berço do filho que se foi.

Pois as lágrimas do coração nem sempre escorrem pelos olhos; são, as vezes, como raízes que crescem sob a terra.

E é assim o meu amor.

Que nada exige, apenas existe. E, sem ti, é como um céu que houvesse perdido as suas estrelas.

Ou como um sonho, que teme esfumar-se ao nascer da manhã.

Mas os dias continuam a passar. E o mundo não se detém em respeito à minha saudade.

Por isto, eu continuo a viver. Para que um dia me possas encontrar, se acaso me buscares.

Acredita! Eu sempre estarei à tua espera.

Mas, enquanto não voltas, preciso fingir que não sinto a tua falta.

Como se alguém pudesse esquecer a própria vida...


Texto do livro "A Sabedoria de Hassan".
UPGRADE: Da amiga Auréola Branca, recebi este belo presente, que agradeço de coração. Obrigado, amiga, pelo selo e pelo grande prêmio que é a tua amizade!

sábado, 2 de agosto de 2008

ESTAMOS JUNTOS

Muito vos tenho ouvido.

E, ao ouvir as vossas vozes, não posso ouvir os vossos corações. Pois as palavras do homem não traduzem os seus sentimentos, mas os seus desejos.

Por isto, às vezes preciso retirar-me um pouco. Para ouvir a mim mesmo.

Então, me julgais só. E me procurais, como se o vosso desejo de estar comigo pudesse ser a demonstração do vosso amor.

Entretanto, jamais estou só.

Ao estar comigo, posso estar convosco; pois as batidas do meu coração em nada se diferenciam do bater dos vossos corações.

E os meus pensamentos são como os vossos pensamentos.

Pois não sou diferente de vós. E, se o fosse, como poderia falar-vos? Algum de vós, acaso, pararia para ouvir-me?

Deteria a águia o seu vôo, para ouvir a cobra que rasteja?

Ou deixaria a toupeira de cavar, para ouvir o pássaro descrever o sol?

Não. Ninguém ouve senão aquilo que pode entender; como não procura senão o que lhe faz falta.

Por isto, os vossos ouvidos acolhem as minhas palavras. E os vossos corações se abrem ao meu coração.

Por isto, ouço a vossa voz a dizer as minhas palavras. E vos recebo no meu coração.

Pois não sou mais que um córrego, que alimenta o vosso rio; e, juntos, desembocaremos no oceano do Saber definitivo. De onde a água, em forma de chuva, voltará a cair e alimentar novos córregos, até que a terra esteja ensopada e a semente floresça.

De nada vos falo, senão do que tendes em vós.

E do que tenho em mim mesmo.

Por isto, deveis perdoar-me se às vezes me afasto; como poderia ouvir as vossas vozes, senão em meu coração?

Acaso me ouvis, senão em vós mesmos?

Não me julgueis só, pois, sempre estareis comigo. Não podeis deixar-me, assim como o mar não abandona a areia.

E não posso deixar-vos, assim como o molusco não abandona a concha que o envolve.

Como a tristeza não abandona a saudade.

Ou a esperança não se afasta do amor.

Trecho do livro "A Sabedoria de Hassan"

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