AS MINHAS PALAVRAS
Deixai-me falar aos vossos corações.
Ainda
que as vossas vozes não ecoem a minha voz. Porque os ventos não reproduzem a
canção do oceano, mas mesmo assim a levam consigo ao redor do mundo.
Eu não
vos peço que aceiteis como verdades as minhas palavras. Pois cada homem tem as
suas próprias verdades e o solo não aceita a pá que brutalmente o invade.
Acolhe,
entretanto, a pequenina semente que o vento traz. E permite que deite raízes e
cresça aos poucos, até tornar-se a planta dadivosa que oferta a sombra amiga.
Eu vos
peço, portanto, que me escuteis; porque é através dos ouvidos do corpo que a
ideia consegue chegar ao universo da alma, onde mora o vosso verdadeiro Eu.
E
devo, por isto, permitir que não seja eu a falar-vos, mas o meu verdadeiro Eu;
para que as suas palavras encontrem guarida no solo generoso e fértil dos
vossos corações.
Este é
o meu papel. Todavia, sei que ninguém poderá fazê-las florescer senão cada um
de vós, que as regará com as suas próprias lágrimas e as aquecerá com os seus
sorrisos.
Porque
é assim que é. Ao mensageiro cumpre fazer-se ouvir e cuidar para bem
transmitir o ensinamento, ainda que as suas imperfeições possam
alterar a mensagem.
Assim
como a flauta imperfeita produz ocasionalmente uma nota dissonante, quando a
atravessa o sopro inspirado e cuidadoso do artista, por mais linda que seja a
melodia.
Não sou o artista; nem sequer a melodia, nem o sopro criador. Mas tão
somente a flauta humilde, que busca fazer-se ouvir, tentando cumprir a missão
para a qual foi criada.
Não me
julgueis generoso, ao distribuir as minhas palavras; até porque nem
mesmo me pertencem. Generosos sois vós, que vos dispondes a escutar a minha
alma.
Generoso
é o solo onde a semente frutifica. E eu vos agradeço, porque sois os guardiões
das minhas palavras, que se perderiam ao vento se não as acolhessem os vossos
corações.
Eu vos
agradeço, pelo muito que todos os dias me ensinais. Pois o homem não aprende
senão com as próprias experiências, mas necessita dividi-las com os seus
irmãos.
Deixai-me
falar aos vossos corações. Para que o eco das minhas palavras possa trazer-me a
fé que orienta, a esperança que sustenta e as forças para prosseguir a jornada.
Para
que eu possa falar ao meu próprio coração.
Do meu livro As Palavras e as Sementes, de 2015








