O Árabe

Idéias, sentimentos, emoções. Oásis que nos ajudam a atravessar os trechos desérticos da vida...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O AMANHÃ

 


- Quantos anos tens?

Eu não saberia responder, se me fizésseis esta pergunta. Poderia, talvez, dizer-vos a minha idade; porém, não tenho mais esses anos: já se foram e hoje só fazem parte do passado.

Em verdade, os anos que ainda temos são os que estão no futuro; e não nos é dado saber quantos serão. Entretanto, uma coisa é certa: o número diminui, a cada ano que passa.

Talvez – quem sabe? – nem chegue a um ano. Esta é uma incógnita da qual nunca lembramos, quando nos desejamos “Feliz Ano Novo!”; mas devemos ter presente em cada dia.

Pois, quando admitimos que haverá a partida, aproveitamos melhor a estada. Não ligaremos tanto aos detalhes que nos aborrecem; atentaremos mais àqueles que nos são agradáveis.

Detalhes sempre existirão; de um tipo e do outro. E não são eles que nos fazem infelizes ou felizes, mas as nossas reações a eles. A casa não depende do tijolo, mas de como é assentado.

Recordai, portanto, que percalços são comuns, em qualquer viagem; e a Vida é a mais maravilhosa das viagens. Relevai, pois, os incômodos; aproveitai a beleza das paisagens que vedes.

Assim como fazeis, em qualquer das vossas viagens, para que delas possais desfrutar. Lembrai-vos de que à Casa retornareis; e guardai boas experiências de cada jornada que fazeis.

Este é o ponto; não importa a quantidade de anos que passamos na Terra; mas o quanto vivemos, durante eles. O principal não é o tamanho da árvore, mas o sabor dos frutos que brotam.

São eles, que adoçam a vossa boca; ou nela depositam um travo amargo, de colheita malsucedida. E bem sabeis que a colheita não depende senão do que semeais e de como cuidais.

Não vos preocupeis com a idade que tendes; ou os anos que vos restam. Nos que já passaram, nada podeis mudar; nos que virão, devem estar vossas esperanças e vosso cuidado.

Podeis acreditar que, sejam quantos forem, serão suficientes; e, se não forem, outras viagens virão. O trigo não está pronto, senão quando amadurece; por isso, as searas e colheitas se sucedem.

Não importam as vossas certezas e dúvidas: as coisas são como são e não vos assiste o poder de mudá-las; só quando chegardes ao futuro, descobrireis como ele será e o que acontecerá.

Cuidai só de viver bem o vosso presente. Vivei cada dia como se fosse o último; mas nada façais que vos possa envergonhar, se não o for. Assim, sempre podereis acreditar no amanhã.

E tereis todos os vossos anos.

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O APRENDIZADO E A FELICIDADE


Desejais, todos, a felicidade.

Não existe um único homem que caminhe sobre a Terra, e não a aponte como seu principal objetivo; acaso, algum de vós pode dizer que seu maior sonho não é o de ser feliz?

Entretanto, felicidade é apenas uma palavra, que nomeia um sentimento; um estado de espírito. Ser feliz é, antes de tudo, estar bem consigo; com coisas e pessoas ao redor.

Por ser um estado de espírito, não há como ser permanente; os sentimentos variam, ao sabor dos ventos da alma. Como as ondas do mar, que parecem iguais, mas não são.  

E cada um de vós tem uma escala de valores própria. Existem aqueles que, acima de tudo, colocam o amor; outros optam pelo conforto e bens materiais, e outros pelo poder.

Outros, ainda, escolhem como prioridade os temas do espírito, ou o sucesso profissional; enfim, cada homem decide de que gosta mais e confunde ter o que quer com ser feliz.

Deixai-me dizer-vos: uma coisa não depende da outra. O homem pode ser feliz, sem ter tudo que deseja; desde que esteja satisfeito com o que tem. Querer mais é que vos frustra.

O inverso também acontece: alguém pode chegar a ter tudo que sonhava, e não se sentir feliz; às vezes, no caminho que escolheu para realizar os sonhos, perdeu-se de si.

E de nada vale ao homem ganhar o mundo, se perder a sua alma. Porque não sois apenas matéria, longe disso; a parte mais verdadeira, em vós, é aquela que sobrevive ao corpo.

Por isto, a chamo de verdadeiro Eu; porque é onde vivem os sentimentos e as emoções, que vos podem fazer felizes. O corpo vos oferece prazeres e alegrias, mas não a felicidade.

Aceitai esta realidade, e mais facilmente vos sentireis felizes; não vos importeis com o corpo, mais do que com a alma. Até porque, depois que passardes, vereis os Jardins do Amanhã.

Abandonai a ambição; sensato é aquele que a substitui pela gratidão. Pois, enquanto uma planta em vós a insatisfação, a outra vos leva a perceber os bens de que desfrutais.

Olhai ao vosso redor e percebereis que ninguém pode ter tudo; este não é o mundo da felicidade, mas o do aprendizado. E, para que aprendais, a felicidade não anda convosco.

Às vezes, vos visita. Para que possais vislumbrar como seria caminhar em sua companhia; o que só conseguireis depois de concluído o aprendizado e atingido o Conhecimento.

Pois é ele que vos leva à felicidade.

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

AS VERDADES

 


Cada um de vós tem as suas próprias verdades.

E as defende, como se outras não pudessem existir. Como se cada estrela não tivesse o seu próprio brilho e, juntas, não iluminassem o céu.

Isso acontece, porque não percebeis que a vossa verdade é apenas uma estrela a mais; no vosso orgulho, julgais que ela seja o sol. E vos espanta que os outros não enxerguem o seu brilho soberano.

Abandonai o vosso orgulho!

Pois, assim como a espuma disfarça a força das ondas, o orgulho do que julgais ser vos impede de serdes tudo o que podeis ser.

Eis que nascestes para crescer.

Se, entretanto, vos acreditais maiores do que sois, limitais o vosso crescimento. E dia virá em que tão grandes vos julgareis, que não mais sereis capazes de crescer.

Aprendei a ouvir as verdades alheias.

E, ainda que não as aceiteis, ao menos meditai sobre elas. Entendei que, assim como uma única nuvem não pode ocupar todo o céu, não podem as vossas verdades compor toda a Verdade maior.

Por isto, não busqueis impor os vossos pensamentos. Se o fizerdes, os vossos irmãos vos esconderão os seus próprios pensamentos; e vos será negado o que poderíeis aprender.

Lembrai-vos que as ondas se atiram sobre a praia, e a areia não reage. Entretanto, as ondas passam e a areia permanece.

Não vocifereis as vossas verdades.

Dizei-as, apenas; e deixai que cada um medite sobre elas. Pois, se o clamor de um brado dura apenas um momento, a voz calma da razão se eterniza em quem a ouve.

Não é gritando, que vos fareis ouvir; assim, apenas conseguireis que os outros se calem. E este não será o silêncio da aceitação, mas o prenúncio da revolta.

Deveis prezar as vossas verdades.

E lembrar-vos que cada um preza as suas próprias verdades, e não as trocará pelas vossas. Será, entretanto, capaz de ouvi-las e pensar sobre elas, se as souberdes enunciar; se nas vossas palavras não houver o estrépito da paixão, mas a profundidade da razão.

Recordai, ainda, que a cada um assiste o mesmo direito.

E, àquele que se recusa a ouvir, não cabe o direito de falar; como, a quem se recusa a aprender, não assiste o direito de ensinar.

Disponde-vos, portanto, a ouvir as verdades alheias; e a respeitá-las, sem temer que diminuam as vossas próprias verdades.

Juntas, as cores formam a beleza do arco-íris.

E as ondas a imensidão do oceano.

Assim como as vossas verdades são partes da Verdade maior... 

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Do meu livro Hassan, disponível na Amazon.


sábado, 10 de janeiro de 2026

AUTO-RETRATO

Dentre vós, alguns me acusam de não ligar às coisas práticas da vida.

Estarão certos, talvez. E como poderia ser de outra forma?

Acaso o beija-flor atenta para as minhocas que fertilizam o solo, se a essência da sua vida é sugar o néctar das flores?

Dizem outros que me perco em sonhos.

E estarão igualmente certos. E, novamente, eu vos pergunto: como poderia ser de outra forma?

Serei eu, acaso, o único a sonhar?

De que nutrem os enamorados o seu amor, se não de sonhos?

Não sonham os religiosos, que pretendem entender Deus?

E o que é a felicidade, que todos desejam, se não o maior dos sonhos?

É preciso que eu sonhe.

Pois ninguém pode dar senão o que possui. E, tendo tão pouco de meu, nada vos posso dar além dos meus sonhos, que transformo em palavras.

Deixai-me, pois, como sou. Porque existem o sol e a chuva, a noite e o dia, o pássaro e a minhoca, o sonhador e o prático. E todos são necessários ao equilíbrio do mundo. 

Não vos enganeis, vós que amais as minhas palavras e pretendeis apontar o sonhar como meu defeito.

Ele existe também em vós.

Pois não me entenderíeis, se eu vos falasse de coisas que não fôsseis capazes de entender ou sentir; por mais belas que fossem, as minhas palavras esbarrariam na vossa incompreensão.

E morreriam em vossos ouvidos, sem alcançar o vosso coração.

Por isto, eu vos digo que somos todos iguais.

E as aparentes diferenças residem nas escolhas que fazemos. 

O homem não faz mais, durante toda a sua vida, do que buscar a felicidade; diferente é o lugar onde cada um acredita que esteja a sua própria felicidade.

E essa é a causa do vosso sofrimento. Porque seria fácil encontrar a felicidade, se todos a buscassem juntos.

Eis que não reclamo dos vossos rumos; antes, tento entendê-los.

Deixai-me, pois, seguir os meus próprios rumos. E, se necessário, perder-me nos sonhos, onde encontro a felicidade.

Porque, assim fazendo, eu a posso dividir convosco, ainda que por breves instantes.

Assim como o céu divide com a Terra a beleza das estrelas que o adornam.

E os sonhos e desencantos dividem os vossos corações.

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Do meu livro A Sabedoria de Hassan, à venda na Amazon.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

PRECE DA GRATIDÃO

 

Obrigado, Senhor, pelo dia que nasce; o primeiro de um novo ano.

No meu coração, só existe a gratidão. Não penso em nada mais, que possa desejar; só tenho a agradecer, por tudo que me deste e continuas dando, por todo este tempo.

Obrigado, Pai, pelo novo ano que chega. Jamais saberemos até onde iremos sobre a Terra, mas o importante não é quantos anos teremos, e sim a forma como vivemos cada dia que passa.

Sou abençoado, por ser feliz. Porque há muitos que possuem mais do que eu, e não desfrutam da mesma alegria que me invade todos os dias. Abro os olhos e sorrio, toda manhã. 

Obrigado por minhas vitórias, pelas alegrias que me deram; e por minhas derrotas, por tudo que me ensinaram. Pois os oásis nos retemperam, mas é no deserto que caminhamos.   

Obrigado por cada momento em que mostrei o meu sorriso, ou escondi as minhas lágrimas. Porque aprendi que vale a pena repartir as alegrias, mas não é bom mostrar as tristezas.

Obrigado por meus tropeços; porque, depois de cada um, a Tua mão me ajudou a levantar e prosseguir. E, se não existe mérito na queda, ele está na capacidade de nos reerguermos.

Sou grato, Pai, por tudo que recebi de Ti. Pois bem sei que não o devo aos meus merecimentos, mas à Tua bondade; melhor do que eu, conheces os inúmeros erros que cometi e assim os perdoas.

Sou grato por cada novo dia que me concedes. E, ainda quando chegar o derradeiro, a gratidão será meu último pensamento e minha última emoção; com ela, iniciarei a Grande Viagem.

Obrigado pelas flores e pelos perfumes; obrigado pela beleza que enche os meus olhos e traz deleite à minha alma; obrigado pelo sol que me aquece e pela lua que vela o meu sono à noite.

Obrigado pelas crianças que nos fazem sorrir e pelos idosos que nos ensinam pela palavra e pelo exemplo; pelos jovens, que nos incentivam com seu entusiasmo e seu ímpeto. 

Obrigado pela música, que tantas vezes me consolou e trouxe novo alento; por este dom de escrever, que me serve para desabafar as dores e incertezas. Obrigado porque sou capaz de sentir.

Obrigado pela brisa, que afaga os meus cabelos. E pela chuva que faz brotar as plantas, como as lágrimas e os sorrisos fazem crescer os sentimentos, no solo fértil que são os nossos corações.

Verdade é que jamais esperei sentir-me tão bem e caminhar tão firme, nas últimas curvas da minha estrada; e Te sou tão grato, Senhor! Tanto me abençoaste, que nada tenho a pedir.

E muito a agradecer!

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